26 abril 2018

Primeiro de maio da tristeza (por Nelsinho Metalúrgico)


“Nestes dois anos de golpe, o número de pessoas em situação de miséria cresceu 11,2%”. (Foto: Filipe Castilhos/Sul21)

Nelsinho Metalúrgico (*)
 
Precarização dos direitos trabalhistas e 13 milhões de desempregados é o saldo que o governo golpista de Michel Temer deixa para o Dia Internacional do Trabalhador, data que marca as lutas e conquistas da classe operária em todo o mundo.

O governo Temer retomou a prática das privatizações, da entrega do patrimônio público e do desmonte das maiores empresas nacionais, como os Correios, a Eletrobras e a Petrobras. Para piorar, o ajuste fiscal em curso contrai o crescimento, restringe a receita, gera desemprego e acelerada rapidamente a ampliação da pobreza.

A Reforma Trabalhista de Temer elevou o contingente de pessoas desempregadas, além de precarizar as condições de trabalho, reduzindo significativamente o número de empregos com carteira assinada. Pela primeira vez, o número de trabalhadores informais supera o de trabalhadores formais em nosso país.

Dados da Pnad Contínua, do IBGE, demonstram que o Brasil perdeu mais de 1,4 milhão de postos de trabalho formais em dois anos. Hoje, o desemprego supera o patamar de 13 milhões de pessoas. Outro problema é a redução da média salarial nas substituições. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o salário médio dos admitidos em fevereiro foi de R$ 1.502,68, enquanto o dos demitidos era de R$ 1.662,95.

A Reforma Trabalhista de Temer também impactou no aumento da extrema pobreza. Nestes dois anos de golpe, o número de pessoas em situação de miséria cresceu 11,2%, aproximando-se de 15 milhões de brasileiros. É o dobro da população da Bulgária.

Enquanto os trabalhadores são vilipendiados, a desigualdade e a concentração da renda só aumentam – 10% dos brasileiros concentra mais de 43% da renda total do país, enquanto aos 10% mais pobres sobra apenas 0,7% da renda total.

Tudo isso em meio a prisão política do maior representante da classe operária de nosso país, o líder maior de nossa Nação, o torneiro mecânico e ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva. A prisão sem provas do presidente Lula tem um único objetivo: calar o desejo da maioria da população brasileira e impedi-lo de voltar à Presidência da República. Todas as pesquisas eleitorais mostram que o povo quer Lula presidente mais uma vez. A população brasileira não aguenta mais os efeitos do golpe.

As forças do conservadorismo retiraram Lula da vida pública porque sua volta à Presidência significa o retorno de um projeto político que vai contra aos grandes interesses. Um projeto que implantou políticas públicas voltadas à distribuição de renda, justiça social e ampliação dos serviços públicos para as pessoas mais pobres.

O momento é difícil, mas como disse o companheiro Lula, jamais conseguirão aprisionar nossos sonhos. Seguimos na luta. O povo quer Lula livre!

(*) Deputado Estadual (PT-RS)

**Postado originalmente no Sul21

25 abril 2018

Gritaria da Lava Jato mostra que decisão do STF “sangrou a veia da saúde”


vazio

Por Fernando Brito* - Como se previu ontem, é grande o alvoroço com a decisão da 2ª Turma do STF em retirar de Sérgio Moro o poder de investigar as “delações” da Odebrecht relativas a Lula e as transferiu para a Justiça Federal em São Paulo.

Miriam Leitão diz que os procuradores da Força Tarefa “não tiraram” os processos de Sérgio  Moro. o que equivale a dizer que, embora não sejam relativos à Petrobras os inquéritos são dele. Claro, qualquer coisa que se refira a Lula, até multa de trânsito, compete a Moro julgar, segundo suas “convicções”.

“a força-tarefa vai protocolar manifestações nas duas ações penais que correm na 13ª Vara Federal, informando que entende que o STF não discutiu a competência ao retirar a delação da Odebrecht de Curitiba”.

Merval Pereira, o que faz mal à saúde, adverte: “Os processos estão com o juiz Sergio Moro e serão retomados com mais ênfase e os procuradores devem estar com uma atuação frenética para dar uma resposta a esta decisão.”

Dá vontade de perguntar ao 12° ministro do STF onde foi que ele aprendeu que os processos judiciais regem-se por “vingança”.

O que está de fato em questão – e por isso deixa a lava Jato em polvorosa – é a jurisdição universal de Sérgio Moro sobre Lula.

Recorde-se que o caso do triplex, que sustenta a prisão do ex-presidente, foi iniciado pelo Ministério Público de São Paulo na Justiça daquele estado e, por decisão de uma juíza de primeira instância, remetido a Curitiba em separado dos demais envolvidos nas investigações sobre a Cooperativa dos Bancários, que permaneceram sob juízes paulistas e foram, em 1ª e 2ª instância, todos absolvidos.

Lula foi a exceção.

E foi porque foi a um juízo de exceção, o de Sérgio Moro e da matilha de procuradores da Força Tarefa.

A reação traz, implícito, um entendimento: só Moro seria capaz de condenar Lula com a pobreza de provas que foram apresentados.

Se é assim, só Moro podia julgar Lula, porque só ele poderia prendê-lo e tirá-lo da disputa presidencial.

Grândola, Vila Morena - Salve a Revolução dos Cravos!





*Grândola, Vila Morena - de Zeca Afonso
  
-  Esta música foi escolhida pelos jovens oficiais - capitães na
maioria - do  Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização do início da Revolução dos Cravos
- que livrou o povo português do jugo da ditadura salazarista que
infelicitava o país há 40 anos. Era o dia 25 de abril de 1974. 

-No vídeo acima, a belíssima homenagem ao Zeca Afonso - falecido em 1987 - e à Revolução.

*Postado originalmente neste Blog em 25/04/ 2011

Decisão do STF pode ser o fim da “Justiça monolítica”



Os colunistas da direita, muito bem instalados nas redações dos grandes jornais, gritam que a decisão do STF de tirar do Açougue de Curitiba as delações da Odebrecht que não guardam relação com a Petrobras, transferindo-as ao seu foro natural, a Justiça de São Paulo (onde está a sede da empresa), diz que isso poderá ser a porta para o livramento de Lula das acusações em relação ao sítio de Atibaia e ao terreno do Instituto Lula que nunca foi do Instituto Lula.

E, ao mesmo tempo, menos que isso e mais que isso.

Menos que isso porque, embora a contrassenso, os processos não foram retirados da vara de Moro, embora devesse e, mais ainda agora, o devam ser, porque não há nos autos conexão evidente destes dois supostos casos com os desvios produzidos por alguns diretores da Petrobras na contratação de empreiteiras, o que é o fio de ligação que justificaria, juridicamente, que os processos corressem em Curitiba.

Não é demais repetir que o princípio do juiz natural é a garantia do Estado de Direito, porque impede o que sobra na Lava Jato: enviar para um juízo onde se tem a certeza do resultado, para o bem ou para o mal, de qualquer acusação contra alguém.

Algo que está tão evidente que, na discussão sobre as prerrogativas de foro, é comum lermos que fulano ou beltrano vai “cair nas mãos de Sérgio Moro” ou que deseja “livrar-se de Sérgio Moro”. Não sabendo em mãos de que outro juiz cairá, é por conta do “medo” de um julgamento em que só por hipocrisia pode-se achar que não seja de cartas marcadas.

Infelizmente, a decisão do STF não vai ainda ao ponto de tirar os casos da jurisdição de Moro, embora abra, sim, o caminho evidente para isto, que pode acontecer junto ao próprio STF, se o negar o Superior Tribunal de Justiça, diante de um pedido de desaforamento da defesa.

Mas disse, também, que pode ser mais que isso, porque estabelece – ou restabelece – uma lógica processual que foi abandonada no caso do triplex do Guarujá: a de que não há, reconhecido pela própria sentença de Moro, vinculação entre a “atribuição” (seja lá o que for essa novel figura jurídica) do apartamento a Lula e os atos de corrupção na Petrobras.

Mesmo que o apartamento tivesse sido solicitado por Lula ou até recebido por ele, para haver competência do juízo de Moro sobre isso seria necessário o vínculo com a concessão de favores indevidos na Petrobras. E não há absolutamente nada que os vincule a não ser a vontade dos procuradores e do juiz de Curitiba e uma declaração vaga de um delator, preso, que diz que o dinheiro para a reforma do triplex teria vindo de uma “caixa geral” de propinas.

Essa é uma razão para aquilo que não se fez até hoje: garantir que as acusações contra Lula fossem examinadas num juízo, ao menos em tese, imparcial.

E não dirigidas, sob aplausos, para o Açougue de Moro, como vinham sendo, até agora, com Lula.

(Por Fernando Brito, no Tijolaço)

24 abril 2018

PT reafirma candidatura de Lula e lança plano de governo - Evento ocorreu em frente à sede da Polícia Federal onde Lula está preso, em Curitiba. Com sete eixos, programa será sistematizado até julho

                                                                                                                                                                           RICARDO STUCKERT
Lançamento plano governo Lula
Para o PT, plano de governo deve impedir o desmonte do país, criar emprego, renda e retomar o crescimento
São Paulo –  Em um gesto simbólico de reafirmação da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvaàs eleições de outubro, o PT lançou os sete eixos temáticos do seu programa de governo nesta terça-feira (24), em frente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula está preso. “É fundamental que esse plano de governo possa impedir o desmonte da nação e a venda dos ativos nacionais”, afirmou o presidente da Fundação Perseu Abramo, o economista Marcio Pochmann.
Com altas taxas de desemprego e expressivo aumento da pobreza, Pochmann explicou que as bases do programa de governo do partido estão sendo construídas nos últimos 18 meses a partir de um diálogo unindo a participação de mais de 300 estudiosos, pesquisadores e intelectuais com o “saber popular”. “Estamos organizando esse grande programa para ser implementado de forma democrática a partir de janeiro de 2019”, enfatizou o presidente da Fundação Perseu Abramo.
Os sete eixos temáticos são: sistema internacional, soberania e defesa nacional; participação popular, liberdade, direitos e diversidade. Qual democracia queremos?; integração e coesão nacionais, e oferta de serviços públicos. É possível construir um país mais justo para todos; o que é qualidade de vida para você?; como aumentar a nossa estrutura de bens de consumo; como reduzir a desigualdade e garantir a inclusão social no Brasil; e por último, desenvolvimento econômico e sustentabilidade, como usar recursos naturais e industriais gerando riqueza para todos.  
Coordenador do programa de governo da legenda, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad disse que o trabalho de elaboração do plano será reforçado com a participação de futuros parceiros. “Queremos alargar o nosso campo de visão para sair dessa crise tão braba.” Haddad ponderou que o PT e a Fundação Perseu Abramo, apesar de toda a crise política dos últimos anos, nunca deixaram de pensar e formular propostas para o desenvolvimento do Brasil.
“São 38 anos de história em que o PT produz os melhores textos, por isso fez o melhor governo”, afirmou. Segundo o ex-prefeito e ex-ministro, o partido sempre uniu a produção intelectual dos meios acadêmicos com a participação dos sindicatos e movimentos sociais que, para ele, trazem pontos de vista diferentes e complementares.
Haddad reconheceu que o desafio dos próximos meses é expressar as reflexões e o sentimento popular em um programa de governo capaz de abrir um novo ciclo de desenvolvimento no país. E reforçou a posição do PT em manter a candidatura de Lula. “Ele já fez. Não é que ele ‘deu conta’. Ele foi o melhor.”
Para Fernando Haddad, o ex-presidente deve ser julgado pelo povo brasileiro, em outubro, nas eleições para a Presidência da República. “Quem melhor do que os milhões de eleitores, depois de anos de massacre, para julgar o Lula? Vamos deixar as pessoas dizerem se Lula tem ou não condições de liderar um terceiro mandato.”
A presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), avaliou que a pergunta deixada no ar por Haddad está sendo respondida pelo povo nas pesquisas de intenção de voto, nas quais o ex-presidente lidera em todos os cenários. “Temos clareza absoluta da estratégia que temos que assumir”, enfatizou Gleisi, reforçando a decisão do partido em manter a candidatura de Lula.
*Via Rede Brasil Atual - RBA

Flávio Koutzii: ‘Há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula na PF em Curitiba’


Flavio Koutzii: “A estrutura dela (da cela de Lula) é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flávio Koutzii passou quatro anos preso, entre 1975 e 1979, em cinco prisões da ditadura argentina. Foi preso por integrar a Fracción Roja do PRT e do ERP (Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo), que participou da resistência armada à ditadura. Após sair da prisão, Koutzii foi para a França, onde se diplomou em Sociologia na “École des Hautes Études en Sciences Sociales”, onde defendeu a tese “Système et contre-système carceral pour les prisonniers politiques en Argentine” – 1976-1980”, que serviu de base para o livro “Pedaços de Morte no Coração”, publicado no Brasil em 1984 pela L&PM. Koutzii citou essa pesquisa, durante debate realizado segunda-feira (23) à noite no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, para falar da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Promovido pelos mandatos da deputada estadual Stela Farias e do deputado federal Henrique Fontana, do PT, o debate, que lotou o auditório do SindBancários, reuniu Flávio Koutzii e Lenio Streck, convidados para falar sobre o “Colapso da democracia e a ascensão do conservadorismo no Brasil”. Koutzii lembrou do estudo baseado na vivência direta que teve nas prisões da ditadura argentina, para falar da prisão de Lula.

“Tenho uma certa experiência sobre isso. Passei quatro anos preso na Argentina e depois, em liberdade, escrevi um trabalho sobre o sistema prisional em que vivi. Passei por cinco prisões e procurei sistematizar o modelo que cada uma usava para tentar coagir e destruir física e psiquicamente os prisioneiros. Quando olhei o desenho da cela onde Lula foi colocado na Polícia Federal em Curitiba, que é apenas um pouquinho maior do que aquelas em que fiquei na Argentina, vi que a estrutura dela é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores, uma ditadura, cabe lembrar, que ‘desapareceu’ 30 mil pessoas”.


Flávio Koutzii disse que ficou pasmo com o que os meios de comunicação estavam reproduzindo sobre os supostos “privilégios” que Lula estaria usufruindo no prédio da Polícia Federal em Curitiba. “Havia coisas que tínhamos, como um período para tomar sol, que não está claro se Lula está tendo. Estou cada vez mais convencido que há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula em Curitiba”. (...)

CLIQUE AQUI para ler na íntegra a matéria assinada pelo jornalista Marco Weissheimer no Sul21. 

21 abril 2018

Tiradentes e o incomum homem comum que brota numa nação

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“Aos bárbaros, injustos vencedores/Atormentam remorsos, e cuidados;/ Nem descansam seguros/ Nos palácios, cercados/ De tropa e de altos muros.”

Por Nilson Lage*

Esse trecho da Lira XXVII de Tomás Antônio Gonzaga, publicada em Lisboa no mesmo ano em que o autor, condenado por participar da Inconfidência Mineira, partia em degredo para Moçambique, é uma espécie de refrão em nossa História.

Tiradentes nos representa porque somos um país de portentosos mártires e eternos resistentes: vencemos, sempre, ao superar cada derrota. Das raras conquistas, temos memória breve; a volta por cima é o impulso que nos move.


Já no teatro grego o herói trágico é aquele que ultrapassa o desfecho inevitável e renasce na forma de mito. Não importa o quanto tentem fazer definitivo o sacrifício; não o farão melhor do que os governantes portugueses na cerimônia de que se comemora hoje o 226° aniversário.


O Rio de Janeiro amanheceu enfeitado em 21 de abril de 1792: assim determinara o vice-rei. Tiradentes vestia a longa camisola branca — a alva dos condenados — e, sereno, rezava sempre. As tropas formavam ao longo das Ruas da Cadeia (Assembleia) e do Piolho (Carioca) até a entrada do Campo de São Domingos (a Praça Tiradentes): soldados dos regimentos de Moura, Bragança e de Estremoz e até mesmo a guarda do vice-rei, comandada por um de seus filhos. Autoridades: o Juiz de Fora, Baltazar da Silva Lisboa, representando o Senado da Câmara; o Desembargador Francisco Luís Álvares da Rocha, a quem caberia atestar a execução. O condenado chegou com um crucifixo entre as mãos amarradas, seguido pelos irmãos da Misericórdia Frei José Jesus Maria do Desterro, guardião do Convento de Santo Antônio, fez longo sermão, louvando a rainha.

O carrasco da Capitania cobriu a cabeça de Tiradentes, empurrou-o, rufaram os tambores. Por três dias as fachadas ostentaram luminárias, no Rio e em Vila Rica. A 25, na Igreja do Carmo, Rio, e na Matriz do Pilar, em Vila Rica, houve celebrações religiosas. Documento da época especifica que a finalidade do Te Deum solene do Carmo era “persuadir os povos à fidelidade a uma soberana, que por felicidade temos, tão amável, tão pia, tão clemente; e rogar a Deus que lhe conserve a vida e a saúde”. Duzentas velas ardiam no templo.

Historiadores mecanicistas, que buscam o motor da História nos fatos crus e não na maneira como os homens os representam, tentam sempre provar que Joaquim José da Silva Xavier, ativista político , dentista, tropeiro, minerador e comerciante, não era nada extraordinário. Todavia, o que o torna especial é ter sido exatamente um homem comum, do tipo admirável daqueles que não traem, e perseveram – a encarnação dos mais nobres ideais de nosso povo.

A terra em que Tiradentes viveu já não era posse de elite diminuta dos senhores de terras, mas uma sociedade nova, física e culturalmente mestiça, no entorno das minas. Ali se construíram cidades – Vila Rica (Ouro Preto), Tijuco (Diamantina); o isolamento geográfico estimulou contatos estreitos entre as classes sociais e propiciou a criação de uma arte diferenciada que, como escreveu Mário de Andrade sobre as igrejas, “não se acomoda com o apelativo belo”: “são dum sublime pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada que são feitas para querer bem e acarinhar”.

As igrejas estão lá – e, numa delas, em Ouro Preto os profetas barrocos. Eles têm muito, hoje, a nos dizer.

*Fonte: Blog Tijolaço

Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil



O Rio Grande do Sul não cansa de passar vergonha na cena nacional. O mais recente capítulo desta saga vexaminosa foi protagonizada pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). A ex-colunista política e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília ficou incomodada com uma entrevista que a presidenta nacional do PT, a senadora Gleise Hoffmann (PT-PR), concedeu à rede Al Jazeera, onde, entre outras coisas, definiu a condição de Lula como a de um preso político, trancafiado na carceragem da Polícia (política) Federal, em Curitiba. “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!” – disse Ana Amélia Lemos em sua conta no Twitter. O imaginário da senadora não hesitou em associar a Al Jazeera ao Estado Islâmico.

Não se tratou de um deslize ou escorregão verbal. Em ano eleitoral, Ana Amélia Lemos vem flertando abertamente com a extrema-direita gaúcha que saiu definitivamente do armário. Recentemente, rasgou elogios, durante uma convenção estadual do PP (partido que, nunca é demais lembrar, é herdeiro da nada gloriosa Arena, principal sustentáculo da ditadura civil-militar criminosa instalada no país apos o golpe de 1964), Ana Amélia Lemos fez uma homenagem às cidades que “botaram a correr a caravana de Lula”. “Atirar ovo, levantar o relho, para mostrar onde estão os gaúchos”, bradou a patriótica senadora no encontro que definiu a pré-candidatura do deputado federal Luiz Carlos Heinze ao governo do Estado nas eleições (se é que ocorrerão) de 2018.

Heinze tem o mesmo DNA de Ana Amélia Lemos. Em uma audiência pública realizada em novembro de 2013 no município de Vicente Dutra, região norte do Estado, o atual pré-candidato do PP alinhou seus adversários na categoria do “tudo que não presta”: quilombolas, índios, gays, lésbicas…”. (...)

CLIQUE AQUI para ler na íntegra (via Portal O Boqueirão Online)

20 abril 2018

Zé Dirceu: “nosso lado é o lado do povo, o lado do Brasil”


O cárcere
Por Fernando Brito*
A entrevista de José Dirceu à Folha {de São Paulo}, na iminência de ser, outra vez, recolhido ao cárcere de Curitiba, é leitura que vai muito além da narrativa simples e despojada, sem afetações heroicas ou dramáticas que faz. Remeteu-me à leitura, décadas atrás, de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, um documento cru – e, por isso, vigoroso – narrando o processo de desconstrução do ser humano que é aprisionado e que, no único convívio que se lhe permite – o da prisão – reconstrói e mantém vivo o ser humano que é.
Não tenho – e jamais o escondi – maiores proximidades com Dirceu. É, e sempre foi, homem da máquina partidária, algo indispensável na política mas, por características pessoais, distante dos que têm natureza passional e temerária. O que não impede, e até ajuda, a admirar quem consegue, com a simplicidade que o ex-homem forte do PT revela, buscar na disciplina a escada para reerguer-se.
Quem espera encontrar nas palavras de José Dirceu um panfleto fácil, choroso, lamuriento, vai se decepcionar. Também não vai achar ali um compêndio de moral vazia. Encontrará o realismo prático de sobrevivência do militante político – nisso bem diferente do velho Graça – diante de situações e pessoas diversas, boas e ruins, num microcosmo que, afinal, reproduz, de forma concentrada, a sociedade extra-cárcere.
Dirceu exprime, o que é raro, a obstinada deliberação em seguir a caminhada política que escolheu como razão de sua vida. Uma trilha que cadeia alguma jamais conseguiu interromper.

Dirceu: “nosso lado é o lado
do povo, o lado do Brasil”.

O ex-ministro José Dirceu, 72, teve seus recursos negados na quinta (19) pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e pode ser preso a qualquer momento por ordem do juiz Sergio Moro.
Por seus próprios cálculos, ele pode entrar na cadeia para não sair nunca mais. “É uma hipótese”, admite.
Com uma “tosse nervosa” e os olhos inchados por causa de uma operação que fez nas pálpebras —entre outras coisas, para enfrentar a fraca luz da prisão e manter o hábito da leitura—, ele recebeu a Folha um dia antes do julgamento para a seguinte entrevista.
Folha –  Como o senhor se sente hoje, prestes a ser preso de novo?
Dirceu – O país vive uma situação de insegurança e instabilidade jurídica, de violação dos direitos e garantias individuais. O aparato judicial policial se transformou em polícia política. 
Como a minha vida é o PT e o projeto que o Lula lidera, eu tenho que me preparar para continuar fazendo política. Eu não posso me render ao fato de que vou ser preso.
O senhor está com 72 anos e foi condenado a 41 anos de prisão. Estamos falando de um regime fechado de sete anos.
É. E eles acabaram com a progressão penal. Você só pode ser beneficiado se reparar o dano que dizem ter causado. E como, se todos os seus bens estão bloqueados? Acabaram com o indulto [para crimes de colarinho branco]. Vamos cumprir a pena toda.
Então o senhor pode entrar agora na cadeia para não sair nunca mais?
É uma hipótese.
E como se sente?
Não muda nada. Preso ou aqui fora, vou fazer tudo o que eu fazia: ler, estudar e fazer política.Eu tenho que cumprir a pena. Eu não posso brigar com a cadeia. O preso que briga com a cadeia cai em depressão, começa a tomar remédio.
Os presos antigos, de forma jocosa mas a sério, quando veem um de nós não aceitando… porque é duro perder a liberdade. Quer dizer, não perde porque não perde a liberdade de criar, de pensar, e também não perde o afeto, o amor. Milhões de pessoas vivem numa condição subumana por causa da pobreza, da exploração. E criam, né? Fazem música, arte, criam os filhos, batalham.
Mas eles [presos antigos] dizem [para quem chega na cadeia]: “Já chorou bastante? Já rezou? Já chamou mamãe? Já leu a Bíblia? Então agora, cidadão, começa a trabalhar! Arruma emprego aqui dentro pra fazer remissão [da pena]. Estuda, viu?
Outra coisa: arruma a tua cela. Transforma aquilo num mocozinho seu, num apartamentinho, põe fotografia da tua filha, põe a bandeira do teu time. Limpa ela direitinho, melhora o que você come. Joga futebol. Porque você vai ficar aqui quatro anos. [Aumentando o tom de voz]. Tá entendendo o que eu tô te falando? Ou você quer ficar igual àqueles lá? [referindo-se a presos deprimidos].
Aquilo ali é três Frontais [remédio para ansiedade] por dia. Olha como ele já tá andando durinho. É o crack em parte que queimou a cabeça dele. Mas o resto é a depressão.
O senhor ouviu esses conselhos quando entrou no sistema penitenciário?
Ouvi. Eu cheguei muito deprimido no CMP [Complexo Médico Penal de Pinhais, em Curitiba]. A minha filha estava denunciada —depois ela foi inocentada—, o meu irmão estava preso.
Eu tomava indutor do sono. Mas logo parei. Fui buscar emprego na biblioteca. Li cem livros no um ano e nove meses em que fiquei lá.
Outros presos vão trabalhar na lavanderia, consertam roupa, outros vão para a censura para ver se os Sedex [enviados pelas famílias] estão dentro da norma, orientados por um agente.
E eu virei, né? Todo sábado e domingo, quando fazíamos almoços coletivos, eu também escrevia as minhas memórias, na cela, à mão.
E como era a convivência com Eduardo Cunha?
Normal. Você está preso. Convive com [condenados pela lei] Maria da Penha, com um pedófilo condenado a cem anos de prisão. Ele é o chefe de um setor. É uma pessoa normal, quieta.
A primeira reação é “não vou falar nunca com ele”. Depois de três anos, minha cara, não adianta. Tem que falar.
Lá tá todo mundo na mesma m., entendeu? Há uma solidariedade. “Vamos evitar que o velhinho pegue sarna, vamos limpar a cela dele, vamos levar ele para tomar banho”.
Se contamina uma cela, pode contaminar todas as 32 celas da galeria, com sarna, com pulga. Temos que cuidar para que todo mundo ferva a água.
E o Eduardo Cunha?
Ele é muito disciplinado. Dedica uma parte do tempo para ler a Bíblia, frequenta o culto. Conhece a Bíblia profundamente. E em outra parte do tempo se dedica a ler os processos.
É uma convivência normal. Vamos limpar os banheiros? Vamos. Vamos lavar os corrimões? Vamos.
Tem que limpar o xadrez todos os dias, lavar as portas e a galeria, para evitar doenças. Nós ficamos na sexta galeria, [que abriga] os presos da Lava Jato, Maria da Penha, advogados, empresários, alguns condenados por crimes sexuais. São 60 presos, separados dos 700 [do complexo penal].
Falavam de política?
Falávamos. Sempre tem uma hora em que um preso joga xadrez, dominó, o outro toca música, ou está acabando de almoçar, voltando do trabalho. Nessas horas você sempre conversa.
E todo mundo é inocente, né? O cara matou a avó, fritou o gato dela, comeu. Mas ele começa a conversar com você e a reclamar que é inocente.
Ficam mais tempo trancados ou circulando?
Ficamos na tranca quando tem rebelião no sistema porque se tem em uma cadeia pode ter na outra. No dia a dia, levantamos às 6h30. Os carros chegam entregando o café da manhã. São muito barulhentos. Todo mundo acorda. Aí sai da cela. Quem tem que trabalhar vai trabalhar.
Às 11h30, chega o almoço. Tudo lá é simples, mas honesto. A comida é simples —de pensão, de quartel—,mas honesta. A roupa de cama é simples, mas honesta. Às 13h30, alguns presos vão ao médico, outros ao parlatório [falar com os advogados]. Todos podem ir na biblioteca retirar um livro.
Desce no pátio duas horas por dia para jogar futebol e tomar sol. E volta. Desce uma vez por semana para ver a família. E volta. Por três, quatro, dez anos, você passa a maior parte do tempo numa galeria de 120 m por 30 m com várias celas. Essa é a realidade do preso.
E as visitas da família?
Você não pode receber a tua família mal. A gente briga muito com os outros presos: “Tua família não pode te ver assim. Fique melhor. Se arruma. Levante o ânimo. Imagine como vai ficar a tua mãe”.
E, se a família chega chorando, o preso volta da visita, deita na cama e cai. É duro ver a família indo embora. É duro. Muitos choram.
O senhor conviveu com Antonio Palocci?
Estive com ele uma só vez, na Polícia Federal. Foi quando ele me disse —ele usou esta expressão: “o Leo [Pinheiro, ex-executivo da OAS] vai salgar o Lula [o empreiteiro revelou à Justiça que pagou a reforma do tríplex do petista]”.
E me disse que ele mesmo ia relatar, em depoimento, como era o caixa dois no Brasil. Deu a entender que ia falar do sistema bancário, eu entendi que ia falar da TV Globo. E fiquei apreensivo. Voltei e conversei com o Eduardo [Cunha] e com o [João] Vaccari [ex-tesoureiro do PT que está preso]: “Tô achando que o Palocci vai fazer delação”.
Os dois ficaram indignados comigo. Principalmente o Eduardo, que disse: “Eu convivi com ele. Em hipótese nenhuma”. Eu deixei para lá.
É verdade que o marqueteiro João Santana contou para o senhor que delataria?
O que fizeram com a Mônica [Moura], mulher dele, foi terror psicológico. Colocaram ela na triagem de Piraquara, uma das piores penitenciárias do Paraná, totalmente dominada pelo crime.
Colocar na triagem significa o seguinte: te colocam numa cela pequena, sem luz, sem nada. Te dão a comida pela bocuda. Sai para tomar banho dez minutos e volta. Em dois dias você faz delação, né?
E isso não é uma tortura psicológica?
Ele falou para mim depois, um pouco como desabafo, angustiado: “Não tenho condição”. Preocupado, né? Porque as pessoas têm vergonha de fazer delação.
Eu falei: “João Santana, da minha parte você vai continuar tendo o meu respeito. Essa é uma questão de vocês”. Já os empresários têm as razões deles, salvar a empresa, o patrimônio, os empregos.
O senhor também conviveu com o Marcelo Odebrecht.
Ele ficava sozinho numa cela. É afável, educado. Mas tem uma vida muito própria. Faz ginástica oito, dez horas por dia. Então não convive, né? Todo mundo sabia que ele era assim e todo mundo respeitava.
Ele se comportou muito bem. Até poderia ser de maneira diferente, pelo que representava. Mas ali é todo mundo igual. Preso não aceita [comportamento diferente]. Quando você entra no sistema, tem que pôr na cabeça o seguinte: “Eu sou preso. Aqui eu sou igual a todo mundo”. Os presos te respeitam se eles veem que você é um deles.
Como vê a perspectiva de Lula ficar preso sozinho? Ele suporta o isolamento?
Como o tratamento é respeitoso e ele recebe advogados todos os dias, e a família uma vez por semana, vai se adaptando.
O pior para ele já aconteceu: a indignidade de ser condenado e preso injustamente. Depois disso, tem que se adaptar às condições e transformar elas em uma arma para você. Esse é o pensamento. Mas eu acho que raramente um ser humano suporta ficar um ano num banheiro e quarto vendo três vezes por dia alguém trazer comida para ele.
Agora surgiu a ideia de o Lula ir para um quartel. Seria pior ainda. Porque eles não querem ninguém lá. A função do quartel não é ser presídio. Ele vai ficar mais isolado.
E ele não consegue?
Eu acho que ele não deve. É uma questão política. Ele deve conviver com outras pessoas, pensar o país, pensar no que está acontecendo. Ele não está proibido de fazer política só porque está preso.
Se o Lula vier para a sexta galeria [unidade do complexo penal em que Dirceu ficou detido], verá que é uma convivência normal. É muito raro ter um incidente. E na prisão você conversa, aprende muita coisa. As pessoas têm muito o que ensinar.
Às vezes você acredita no mito que criam sobre você. Que você é especial, que teve uma vida, no meu caso, que dá até um filme. Mas você começa a conversar com um preso comum, e descobre que é fantástica a vida de cada um lá.
O que o senhor sentiu quando viu Lula sendo preso?
Eu sou muito frio para essas questões, sabe? Acho que ele fez o que tinha que fazer, aquela resistência simbólica foi necessária. E nós ganhamos essa batalha política e midiática.
Mas nada mexeu com o senhor?
Eu fiz da minha vida praticamente o Lula. E me mantive leal a ele. Não faltaram oportunidades, amigos e companheiros que me empurravam para romper com ele, em vários episódios. Mas eu sempre achei que a obra do Lula, a liderança dele, o que ele fez pelo país, compensava qualquer outra coisa. Então eu não dei importância. Depois de uma semana, já não lembrava.
Em 2011, eu estava num barco alugado, pescando, e recebi um telefonema com a informação de que o Lula estava com câncer. Eu chorei. Me deu a sensação de que poderia ser o começo do fim da vida do Lula. Mas agora, como já passei três vezes pela prisão, é diferente.
Você tem que lutar por todos os meios, legais e políticos, para ser solto. Mas sempre tenho a ideia de que, se souber levar a prisão, ela pode se transformar numa melhora para você mesmo. De estudo, de pesquisa, de reflexão.
Em algum momento dessas reflexões na prisão o senhor concluiu que errou e cometeu crimes?
Eu não cometi crimes. Não há nenhuma prova, nenhum empresário ou diretor afirmando que eu pedi alguma coisa na Petrobras. O que eu errei? Na minha relação com [o lobista e delator] Milton Pascowitch. Eu comprei um imóvel, financiei, paguei a entrada.
Ele reformou o imóvel. Eu não paguei. Foi um erro meu. Eu não poderia ter estabelecido essa relação.

Era um empréstimo não declarado. Que virou propina. Foi uma relação indevida. Admito. Mas não criminosa.

O senhor já disse que a militância é solidária mas que vocês cometeram muitos erros.
Eu estava falando de mim. Eu sempre digo: eu tenho apoio da quase absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT, pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento.
Querer ser consultor e ganhar dinheiro foi um erro?
Eu não queria ganhar dinheiro. Eu queria sustentar a minha defesa e a minha vida política. Eu não tenho patrimônio. A casa da minha mãe eu tinha comprado antes, o apartamento do meu irmão foi financiado.

Eu tenho R$ 2.000 na minha conta. É só ver como eu vivo, no apartamento da minha sogra. É só perguntar para o prédio sobre o IPTU. Vai na escola da minha filha perguntar sobre a mensalidade.

Quais foram os erros que o senhor cometeu então?
Eu não deveria ter feito consultoria. Ela cria um campo nebuloso entre os meus interesses como consultor e o interesse público. Eu ficava me lamentando: “Por que eu fui fazer essa coisa [consultoria] com a Engevix [pela qual foi condenado]?”
O Vaccari falava: “Para com isso, Zé Dirceu. Você não foi condenado por isso”. Depois fui condenado em outro processo sem ter nada a ver com nada. E o Vaccari falou: “Tá vendo?”.
Então eu às vezes fico dividido. E concluo que na verdade eu fui condenado por razões políticas. Eu não fui condenado pelas consultorias que prestei.
Lula fez um governo aprovado por 83% dos brasileiros. Por outro lado, desvios de milhões foram comprovados. O fato de vocês terem financiado campanhas com dinheiro de estatais e caixa dois não seria razão para um arrependimento, uma autocrítica?
Nós temos que denunciar o que fizeram conosco, e não foi por causa de nossos erros. O legado do Lula, o nascente estado de bem-estar social que ele consolidou, está sendo todo desmontado. Estão desfazendo a era Lula como quiseram desfazer a era Getúlio.
Eu faço o balanço histórico: estamos do lado certo e o saldo de tudo o que fizemos é fantástico. Eu vou dizer uma coisa para você: a Igreja Católica Apostólica Romana tem uma história de crimes contra a humanidade.
Não vou nem falar das Cruzadas ou da Inquisição. Se eu for olhar para ela, vou mandar prender todos os padres e bispos porque a pedofilia é generalizada. Ou não é? Mas é a Igreja Católica Apostólica Romana. A vida é assim. O mundo é assim.
O PT cometeu erros? Muitos. Mas tem uma coisa: o lado do PT na história, o nosso lado, é o lado do povo, do Brasil.
Não tinha outro jeito de financiar campanha?
Tem: o autofinanciamento com apoio popular. Mas, nas condições que estávamos enfrentando, era impossível fazermos isso. Porque a dinâmica da vida política, do sistema, é essa. A solução seria financiamento público com lista [partidária]. O PT lutou, o Lula lutou também por isso. Mas ninguém quis fazer.
Alguma vez o senhor imaginou que a história terminaria com o senhor e o Lula presos?
A tentativa de derrubar o nosso governo eu sempre imaginei. Toda vez que no Brasil há um crescimento muito grande das forças políticas sociais, populares, de esquerda, nacionalistas, progressistas, democráticas, isso acontece.
De 1946 a 1964, o Brasil viveu sob expectativas de golpe contra governos trabalhistas, getulistas. O Juscelino [Kubitschek] só tomou posse porque o [marechal Henrique Teixeira] Lott deu o contragolpe.

Só teve a posse do Jango porque [Leonel] Brizola se levantou em armas. Aliás, só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou falando sério.

Mas essa seria uma possibilidade?
A solução hoje é igualzinha à que eles fizeram. Desestabilizaram o governo Dilma. Impediram que ela aprovasse uma pauta de ajustes. Colocaram milhões de pessoas na rua e buscaram uma solução legal. Nós devemos fazer a mesma coisa.
E têm força para isso?
Temos. Pode demorar dois, quatro, seis anos, mas temos. Você não desmonta a estrutura de bem-estar social que o país tem sem consequências. As forças políticas e sociais vão ganhando consciência. Vão surgindo novas lideranças, novos movimentos.
O país vai ter um longo ciclo de lutas. Mas primeiro é ganhar a eleição. No segundo turno, se as esquerdas se unirem, teremos força para isso.
Quem o senhor coloca como esquerda?
Os candidatos do PSOL, do PC do B, o PT, o PDT e o PSB.
O senhor então inclui o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, hoje no PSB?
É um candidato que pode ser cooptado pela direita. Mas pode ser que não. É uma incógnita.
O senhor votaria nele no segundo turno contra contra alguém da direita?
Bem, essa hipótese… vamos esperar. O meu candidato é o Lula. Nós temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e registrá-lo em agosto.
Se não fizermos isso, será um haraquiri politico. Nós dividiremos o PT em quatro ou cinco facções. Nós temos que manter o partido unido. Daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a executiva, os deputados.
Como ele fará uma consulta de dentro da prisão?
Da prisão você consulta quem quiser. Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar.
De dentro da prisão?
É a coisa mais fácil que tem. É só ele falar o que ele pensa.
Mas a gente sabe o trabalho que deu para ele transferir votos em outras eleições. Ele aparecia na TV todos os dias, viajava pelo país.
Sabe qual é a diferença de 2014? É que o lado de lá tem a TV Globo, o aparato judicial militar e o poder econômico. Mas está mais desorganizado e enfraquecido do que nós.
Eu tenho confiança de que o fio da história do Brasil não é o fio das forças da direita. O fio da história do Brasil é o fio que nós representamos.
*Via Tijolaço